Entenda os motivos da desvalorização de carros usados

Publicado em: 12/07/2010

Queda de 16% nos preços de automóveis usados. O colunista José Leite explica as razões:

O estrago causado pela crise no mercado de usados parece não ter fim. Parece não. Não terá mesmo fim, como veremos mais à frente. Depois de uma queda brusca de 7% na média dos preços no último trimestre de 2008, o setor passou todo o ano de 2009 com quedas sucessivas e entrou em 2010 no mesmo ritmo, destoando dos demais segmentos, que logo após a crise iniciaram a recuperação e retomaram o crescimento. A queda de preços chegou a 16% no acumulado dos últimos 20 meses, de outubro de 2008 a maio de 2010.

As razões são conhecidas: a crise paralisou o mercado e o comerciante, prudentemente, deixou de comprar com medo de não conseguir girar o estoque. Por outro lado, a facilidade de compra do carro novo, com a redução (ou eliminação, no caso do 1.0) do IPI e a ampliação do financiamento, leasing e consórcio de automóveis fez uma parcela dos consumidores migrar para o modelo zero quilômetro. A consequência foi a queda de preço.

Mas o volume de ofertas, no entanto, não sofreu alteração. Dados da Fenabrave mostram que a venda de usados acompanhou a venda dos novos de 2008 até hoje. Quer dizer: o preço caiu, mas não paralisou o mercado. Além disso, a alta expressiva de vendas de novos por conta do fim do benefício do IPI e março último foi acompanhada pelos usados, que se mantiveram em alta nos meses seguintes, enquanto as vendas de novos caíram.

O carro passou a perder preço mais rapidamente depois de sair da concessionária. O último estudo AutoInforme/Molicar sobre Depreciação de Veículos mostrou que o valor de revenda dos carros pequenos com motor 1.0 diminuiu cerca de três pontos percentuais nos últimos dois anos. Em maio de 2008 o carro popular perdia 8% do seu preço depois de um ano de uso. Hoje, perde 11%.

Um Celta Life 1.0 2p OK, vendido por R$ 24,8 mil em maio de 2008, valia depois de um ano (portanto em maio de 2009) R$ 22,5 mil. Perdeu 8,7%. Hoje, o mesmo Celta com um ano de uso (comprado em maio do ano passado por R$ 24 mil) vale R$ 21,2 mil, uma queda de 11,5%.

Nos segmentos mais caros a perda é ainda maior: uma van Picasso Exclusive 2.0 automática perdia 19% do valor em 2009. Hoje perde 24 %.

A queda de preço em todo o ano de 2008 foi de 7% e em 2009 foi de 6%. São índices próximos aos de 2006 (-7,2%) e 2007 (-5,3%). Mais atrás, em 2001 a queda de preços dos usados foi de 6,2% e em 2002, 5,5%. A exceção ocorreu em 2005, quando o preço subiu 0,36%.

O carro é um bem de consumo, é natural que tenha uma rápida depreciação, especialmente num mundo cada vez mais consumista, onde os modelos são alterados a cada dois anos para estimular o consumidor a fazer a troca. Já foi a época em que o usado era “investimento”. Nas décadas de 1980 e 90, muitas vezes o carro usado valorizava mais do que dólar, caderneta de poupança, ouro e ações na Bolsa. Hoje não. Embora muita gente tenha no carro usado uma “reserva financeira”, ele é cada vez mais um bem de valor perecível.

 


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